Crônica sobre a ditadura

Fecho os
olhos para 2014 e paro um instante. É o ano de 1964, dia 30 de março. Ouço por
todos os lados que Jango é a favor do comunismo no Brasil, não há escapatória:
quem me dirá o contrário? Passo a acreditar no que dizem. Agora é dia 01 de
abril de 64. Graças a Deus a ameaça comunista se foi. Os militares estão no
poder e irão colocar a ordem nesse Brasil bagunçado. Ufa! Estou aliviado! A
propaganda sobre o novo governo de Castelo Branco é forte, bonita. Sorrio ao
contemplá-la. Vão passando os anos e ouço que a economia vai bem, políticos
corruptos são caçados e presos e as condições de vida da população é a melhor
de toda a história. Fico satisfeito. Amo o Brasil! Viva ao país!
Médici
entra no poder depois de Costa e Silva. Tudo continua perfeito. Ando pela rua e
de repente me deparo com um susto: um confronto entre os jovens e a polícia.
Ouço gritos, vejo correrias, cartazes e pichações por todos os lados. A polícia
consegue agarrar um jovem e bate em sua cabeça, arrastando-o em seguida para o
carro militar, onde o joga com força. Saem depois.Mais uma
multidão de pessoas correm atrás de mim, em minha direção. Nos esbarramos e
fico desnorteado. Qual o motivo disso tudo?
A polícia
agora está atrás de mim também. Começo a correr junto com os outros sem saber
por quê. Entramos numa esquina e nos separamos. Há uma garota ao meu lado e
pergunto-lhe o que aconteceu. Ela me diz para abrir os olhos e impaciente,
repito minha pergunta. Responde ela “Estamos vivendo uma ditadura! A censura!
Você não vê?”.
Nos afastamos
e paro de correr. Não faz sentido. É ilógico! Passo a ficar fissurado pelo que
vi. Começo a procurar em todos os lugares provas do que ela disse, mas tudo
parece ser escondido demais, de repente até perfeito demais. Até que fico
sabendo de uma reunião dos estudantes que protestavam. Indo lá, começo a ouvir
narrativas sobre a suposta “ditadura”. Fico extasiado, quase vomito. A vontade
que me dá é de chorar, porém nenhuma lágrima desce. Agora faço parte dos
protestos e critico o governo. Não há ordem, nem muito menos progresso no país.
A ânsia de que a ditadura vai acabar preenche o meu peito.
Até que sou
levado para a prisão e vivo o jamais imaginável. Sou torturado com o
pau-de-arara e choques elétricos para que eu abra o jogo e entregue os
manifestantes. Tenho nojo do governo, nojo do país, nojo de mim mesmo por ter
acreditado em tantas mentiras. Na cela, mal conseguindo respirar, ouço outra
pessoa ser torturada e acabo sabendo depois que tivera seus testículos
esmagados.
Depois de
algum tempo, quase ficando louco, alguém consegue me tirar de lá e sou exilado
do país. O que antes parecia impensável, agora se torna um alívio.
Abro os
olhos e estou de volta a 2014. O índice negativo que o governo militar deixou
na economia, a tristeza dos parentes de vítimas que desapareceram, marcas
ocultas do que aconteceu nos vinte e um anos de ditadura, como as tantas mortes
de índios (que muita gente desconhece), ainda continua vivo. Só o que não
continua vivo são os jovens que davam suas vidas pela liberdade dos outros e
hoje não dão uma hora do seu dia para pensar no país ou nas eleições. Fico
pensando se houvesse uma nova ditadura, o que aconteceria. Porque certamente a
censura ainda existe, mesmo que em menor grau. E aí? Quem revolucionaria?
Essa é a
geração que só herdou o “deixa como está para ver como é que fica”. Não se
importam com a democracia desde que sua internet não seja cortada. Dormente, o
Brasil que pareceu despertar, na verdade nunca deu nem um suspiro.
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